
São 7 horas da manhã: hora de fazer a sessão ritualística da Nova Era com a ajuda de todos os “mestres”. Alberto, microempresário bem sucedido (na verdade consegue se esconder dos credores e fiscais), vai para a aula de Tai-Chi-Chuan na praça perto da sua casa. Isso desde que uma amiga, dessas que falam de anjos e Feng-Shui, falou que a sua energia estava baixa, e que ele precisava de uma energização positiva. Ele se interessou pelo assunto, e era tido entre os seus amigos místicos e esotéricos como um homem espiritualizado.
Acreditava que a sua posição era mais do que justa, afinal estudara uma técnica de energização indo-sino-japonesa, ensinada só a um “seleto grupo”, que havia sido descoberta no século 19 por monges tibetanos nos EUA, e pagara (bem pago) para se tornar um Master-Super Energizer-Man (ele sempre achou que isso parecia propaganda de pilha). Mas energização não é tudo, ter diplomas é melhor, por isso havia feito um curso com um xamã que se dizia descendente um índio americano nascido no deserto de Atacama (mas ele bem que parecia só mais um americano com aquele bronzeado escritório.
Alberto se sentia bem energizado (a amiga tinha razão) e, depois de fazer o Tai Chi (com um mestre que conhecia tudo da China pela National Geographic), foi dar uma corridinha, pois sabia que estava cheio de energia positiva e podia gastar um pouquinho.
1ª volta: Tudo OK.
2ª volta: Alberto sente uma tontura, mas imagina que é a energia negativa do local (ele estudou energias ambientais a R$2000 a hora e entendia tudo do assunto).
3ª volta: Dor no peito... deve ser o chakra cardíaco se abrindo para o Amor Universal; alguns mestres dizem que isso acontece (leu todos os livros que têm a palavra “mestre” na capa).
4ª volta: Túnel de Luz... OPS!
Ele estava “desencarnando”. Sentiu isso. Sua missão evolutiva na Terra havia terminado, e agora ele se sentaria ao lado dos 7 (ou seriam 12, 24 ou 365?) mestres. Ele sentia, com certeza, que tinha “ENERGIA” suficiente para dar e vender. Já sentia os efeitos da “ascensão”, podia ouvir as melodias dos anjos (ah! os cds new age). TUM!
Que lugar era aquele? Podia ver os fatos de sua vida passando como um flash na sua frente (puxa, era verdade). Peraí! As imagens não estavam mostrando ele se tornando o homem espiritualizado que era. Parem tudo! - Imagens nada agradáveis: seus ataques de fúria na empresa (onde era conhecido como A Grande Besta). Epa! A viagem de final de ano! Não! Eu estava estressado.
Daí por diante foi um festival de caras amarradas. Mas o chocante foi quando tudo terminou, e Alberto viu uma imagem estática à sua frente, na qual estava com uma pose de homem “espiritualizado” numa revista sobre ioga e a felicidade (ele sempre achou que era bem fotogênico).
Terminado o flash, Alberto se levantou e gritou a plenos pulmões:
– E daí? Sou Master-Super Energizer-Man, e posso vencer tudo. Sei como queimar todo o meu karma (técnica especial 317-A, desenvolvida e, como sempre, bem paga, no retiro que fez num spa durante aquelas férias de final de ano).
Ao que uma voz ponderada perguntou:
– Podes vencer o teu coração?
Nesse momento, o chão fugiu-lhe. Sentiu como se seu peito se abrisse. A dor era insuportável, tudo ardia, a luz o medo, a culpa, a escuridão. UTI.
Seu corpo está estirado na cama, com mais tubos que uma destilaria. Ele pode sentir o plástico ferir-lhe a garganta. Percebe, pela sensação no peito, que foi operado. Teve uma nova chance, e agora não vai desperdiçar: vai se voltar para a espiritualidade com força total. Um curso de cura energética desenvolvida no Alaska pode ser o que lhe falta (estava no catálogo).
Dois espectros a um canto do quarto se entreolham, e o mais belo diz:
– Não disse irmão? Eles não mudam! Ao que o outro responde:
– Não estamos aqui para mudá-los. Não os empurramos para as escolhas que cremos serem as certas. Nós apenas damos as chaves; são eles que escolhem as portas a serem abertas, sejam elas quais forem. Afinal, irmão, você sabe mais do que nós que não existem portas erradas no plano d’Ele.

Há milênios o ser humano aposta num ideal de felicidade, sem contabilizar o preço ou o meio de alcançá-la, pois a felicidade é um prêmio que nos coloca num terreno enganoso, pois nunca tem o mesmo sentido para todos. Seu significado é indeterminado; afinal, cada pessoa – sejam filósofos, religiosos, intelectuais ou outros – entende que sua maneira de ser feliz é a única.
Claro que todos desejamos ser felizes, e é impossível definir objetivamente essa idéia. Mas alimentar essa sensação da necessidade de ser feliz gera uma demanda que deve ser atendida – Teoria do Mercado -, gerando uma obsessão cada vez maior: quanto mais se diz que as pessoas devem ser felizes, mais elas ficam obcecadas em ser.
As palavras de ordem são: seja feliz! Compre sua pílula da felicidade! Veja como esse sorriso fica bem em você. Nada de tristeza, só alegria. Sofrer é para os trouxas; quem é esperto de verdade, é pura felicidade.
E como é frustrante não ser feliz (daquele jeito que “vendem” para você), ter de encarar as dificuldades e não poder ser como todo mundo que está feliz. Ser obrigado a encarar os problemas, resolvê-los, se estressar e encarar as pessoas perguntando, no fim do dia, qual o motivo de você não estar com um sorriso gélidamente implantado no rosto.
É uma imposição do “ser feliz”, mas se você não consegue ser assim, sempre tem o Prozac. Porém, se a química não é o seu forte, sempre dá para apelar para um banho relaxante com ervas da Bruxa Patinha; ou então assista a uma palestra sobre “como ser feliz em 10 dias”. Para ser feliz sempre tem algo que você pode comprar para conseguir aquele sorriso de gesso.
Pode parecer que falo da felicidade com uma certa ironia, mas a verdade é que não trato aqui da felicidade apenas como fruto das experiências humanas, e sim como produto mercadológico atual. O homem deve buscar o seu bem-estar pelo uso ativo de suas faculdades, dons e esforços, e isso às vezes provoca alguns conflitos com as demais pessoas. E, quando desses conflitos surge a tristeza, o natural seria lidar com ela como um dos passos para nosso crescimento, para atingir outro estado de ânimo. No entanto, não é isso o que vemos.
Dessa forma, nos afastamos do sagrado ato de sorrir, tão simples e libertador. Como a felicidade, hoje em dia, está fora do ser humano, nós nos esquecemos como fazer para encontrá-la dentro de nós. Ironicamente, o ser humano pode ser feliz independente da obrigação de sê-lo, independente das “fórmulas de alegria” que tentam nos vender todos os dias.

Temos atravessado um período conturbado em que a intolerância, o medo e a inveja têm causado tanto sofrimento ao Homem que se torna necessário repensar os motivos que levam o ser humano a trilhar os caminhos que nutrem o seu próprio sofrimento e o do próximo.
Na era de Peixes, vivemos um período em que o coletivismo preponderou, com o indivíduo ficando em segundo plano; ele estava sob o jugo de uma força maior. Essa atitude serviu como uma grande alavanca para proporcionar à humanidade uma ponte que realizasse a reconexão de suas necessidades interiores com as forças divinas.
Nesse sentido, essa visão nos serviu bem nos últimos dois mil anos. Contudo, essa era se desgastou, e o coletivismo tornou-se a via através da qual a intolerância religiosa faz mais vítimas, pois cada um dos grupos cedeu a sua individualidade em prol das guerras que seus líderes travam em nome da “verdade” e de “Deus”.
A visão coletivista teve o seu auge com os pensamentos materialistas e políticos da década de 60, no século XX. O indivíduo, como ser único e possuidor da sua própria liberdade, era visto de forma pejorativa e negativa. Entretanto, na nova era, essa visão está sofrendo uma grande transformação e um revés interessante. O indivíduo voltou ao centro da discussão, e as verdades coletivas, assim como todas as suas grandes instituições, foram colocadas em xeque.
A nova transformação nos paradigmas espirituais implica, necessariamente, numa revisão do individualismo como uma porta para a criação de uma nova era. Essa revisão passa pela percepção da natureza divina interior de cada ser vivo em nosso planeta.
Na era de Aquário, o indivíduo irá se tornar o centro das buscas espirituais. A percepção dos seus infinitos potenciais interiores será a chave para se vencer a intolerância, em seus mais variados níveis. Perceberemos que não precisamos atacar tampouco roubar o que existe no “outro”. Afinal, tudo o que vemos do lado de “lá” também está dentro de nós.
Ao ampliarmos essa visão, também compreenderemos que todos nós, sem exceção, temos um potencial infinito, e que esse potencial nos torna fraternalmente semelhantes. Tudo o que possuímos está presente em toda a humanidade, e aqui se incluem nossas verdades e visões de Deus.
Dessa forma, podemos afirmar que o grande mal do século XX, o individualismo, será a grande ferramenta evolutiva da era de Aquário, pois ela será a chave para acordar a semente divina em cada um de nós.

O mundo das corporações e empresas é parte de uma nova vivência espiritual que está levando ao nascimento da espiritualidade prática, que por sua vez leva a um crescimento diário e constante, ao contrário da espiritualidade vivida na era anterior.
Nessa nova fase, o abandono do mundo físico e carnal em nada contribuirá para o nascimento da força espiritual verdadeira, apenas tornará o caminho mais longo, em vez de mais curto.
Algumas pessoas podem se perguntar sobre o que acontecerá se as pessoas não quiserem seguir essa nova sintonia. A resposta é muito simples: serão dinossauros num mundo em constante mutação. As empresas estarão cada vez mais abertas a pessoas que estejam seguindo esses caminhos, principalmente porque as inovações tão necessárias nos tempos atuais serão geradas por essa nova massa crítica de guerreiros espirituais.
Claro que, em meio a tudo isso, ainda teremos as forças escuras tentando atingir de novo o ser humano para mantê-lo na ignorância da sua condição divina. Mas os ensinamentos dos mestres estão aí para todos desfrutarem e, mais do que nunca, a força divina se fará presente em cada ser humano na face do planeta, e será realizada a Grande Obra do Grande Arquiteto, e isso será feito no dia-a-dia.
Quando vamos para o trabalho, surge um excelente momento para ativarmos os níveis superiores de consciência por meio da meditação. Na maior parte das vezes, estamos com um pouco de sono e já preocupados com o que vai acontecer ao chegarmos. Essa hora pode fazer toda a diferença do mundo para que tenhamos um dia bom.
Manter a mente limpa por alguns instantes, mesmo no trânsito das grandes cidades, não é difícil. E além do mais, se preocupar com algum problema não o resolve. Podemos chamar isso de primeira atitude espiritual. A segunda e mais importante é não fazer aos outros o que não gostaríamos que fosse feito conosco. Essas duas atitudes levam o ser humano a se sintonizar com energias mais elevadas e a constituir um corpo mental e espiritual mais forte.
A isso se une o fato das empresas estarem se preocupando cada vez mais com as energias envolvidas no meio ambiente empresarial. Muitas estão fazendo uso de técnicas como cromoterapia, radiestesia e, mais recentemente, da ciência chinesa do feng-shui (fong-suei). Tal atitude tem levado à melhoria das energias e elevado a moral e a ética nos locais de trabalho.
Tudo está levando o ser humano a atingir novos níveis de conscientização, mudando até a idéia que se tem com relação ao capital e sua função na sociedade. Hoje, o acúmulo de capital está se tornando um símbolo de algo que deve ficar no passado: o dinheiro deve circular e gerar mais riqueza. As filosofias nascidas nos últimos tempos têm nos ensinado que a prosperidade é uma forma de energia que, para crescer, deve ser compartilhada por todos.

A verdadeira essência de uma vida elevada não se encontra no ato de entoar mantras em línguas que você sequer compreende, mas sim na luta diária. A essência da vida está em construir o seu poder espiritual nas dificuldades e na pressão de viver o aqui e agora intensamente; está na capacidade de se fortalecer em meio ao mundo urbano.
Esse trabalho deve permear as instituições e empresas, em todos os lugares, e permitir que seus funcionários sigam seus caminhos pessoais ao exercerem suas funções dentro da empresa.
A atitude predatória que definiu a filosofia do capitalismo na década de 80 foi um grito de desespero de uma visão antiquada e predatória que culminou em sucessivas crises na década de 90.
Hoje, não é incomum vermos pessoas nos mais altos níveis de gerência tomando florais para melhorar a sua psiquê ou usando métodos holísticos para remanejar o pessoal, de maneira a ter uma equipe o mais sintonizada possível com os objetivos da empresa.
Nunca a intuição e a sensibilidade foram tão valorizadas. Hoje, termos como Inteligência Emocional são comuns e integra o jargão de quem quer fazer parte do Departamento de Recursos Humanos, que ultimamente vem sendo muito valorizado e é, para muitos, uma das áreas essenciais nesses novos tempos.
Tudo isso é reflexo das possibilidades geradas pelo avanço das tecnologias da informação. Depois que você se forma numa universidade tem de se manter atualizado, e isso exige uma mente aberta para novas formas de pensamento que somente são possíveis com uma maior espiritualização, pois o racionalismo possui seus limites.

Feche os olhos e pense em um local onde você pudesse exercitar diariamente a sua espiritualidade. Será que você pensou em um mosteiro retirado nas montanhas, ou numa floresta cercada pela vida mais selvagem que puder encontrar?
Seria muito bom se pudéssemos viver em lugares assim, mas a espiritualidade seria algo muito pobre e tolo se apenas pudesse ser encontrada nesses locais em que, sinceramente, a maior parte de nós não têm a menor oportunidade de passar sequer um final de semana, quanto mais ficar o tempo necessário para levar uma vida espiritual.
É no mundo real, no dia-a-dia do trabalho, que a verdadeira espiritualidade nasce e pode ser cultivada, e é aqui que devemos centrar nossa atenção para buscar a essência da vida espiritual e prática.
Seria fácil sermos espirituais em um mundo sem dificuldades nem inveja e, principalmente, longe da convivência com as pessoas chamadas normais, que vivem vidas normais, cheias dos obstáculos dos quais fugimos e que alegamos pertencerem ao mundo carnal, quando na verdade são essas dificuldades as ferramentas que forjam a alma.
Não importa se você vive em função de números e resultados a serem obtidos. Ative a sua intuição, compreenda que tudo na vida é energia, e aceite o fato de que as trocas que realiza no seu dia-a-dia – sejam elas de natureza pessoal, financeira ou energética – é que tornam a sua vida realmente próspera ou não. Dessa forma, você estará entrando na trilha que muitos já percorreram antes: a do guerreiro espiritual. A verdadeira essência de uma vida elevada não se encontra no ato de entoar mantras em línguas que você sequer compreende, mas sim na luta diária para VIVER! (e não sobreviver)
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